Calcula-se que 6 mil mulheres e raparigas em todo o mundo são infetadas pelo VIH a cada semana. Esta realidade devastadora é particularmente acentuada em Angola, onde as novas infeções pelo VIH entre mulheres de 15 a 24 anos são mais do que o dobro das que se verificam entre homens jovens. Contudo, a próxima geração de mulheres ativistas está a lutar contra esta situação. Mobilizando as comunidades locais, elas desenvolvem esforços de sensibilização para o VIH e as questões de saúde, melhoram o acesso a serviços e estruturas de apoio ao VIH para as suas congéneres e desafiam a desigualdade.
O fim da guerra civil de 27 anos em 2002 em Angola prenunciava um novo começo, mas as desigualdades generalizadas, a pobreza e uma seca induzida pelas alterações climáticas nas províncias do leste e do sul levaram os mecanismos de defesa das pessoas ao limite. Angola é um dos poucos países africanos onde as novas infeções pelo VIH e as mortes relacionadas com a SIDA cresceram nos últimos dez anos.
Em Angola, calcula-se que apenas 42% das pessoas que vivem com o VIH saibam sobre o seu estado de saúde. Este número está bastante aquém da meta global que preconiza que 90% das pessoas que vivem com o VIH tenham conhecimento do seu estado de saúde até 2020. Os esforços para aumentar o acesso a serviços de testes de deteção do VIH livres de estigma e de discriminação são vitais. Para as raparigas adolescentes e mulheres jovens, isso significa que as abordagens ao VIH devem ser adaptadas às suas necessidades específicas para que as informações sejam partilhadas por alguém com quem consigam estabelecer relação e confiar. É necessário disponibilizar unidades de teste do VIH em locais a que elas possam aceder e onde se sintam à vontade.
Este pedido está a ser respondido por grupos comunitários liderados por mulheres conhecidos como “Bancadas Femininas”. Conduzidos por mulheres Ativistas que receberam formação, os grupos trabalham em bairros locais, recorrendo às línguas locais, para aumentar a sensibilização para o VIH e as questões de saúde, além de incentivar mulheres e raparigas a tomarem conhecimento do seu estado no que diz respeito ao VIH.
Tal como destacou a Comissão Global sobre o VIH e a Lei, o acesso confidencial e independente a serviços de saúde é essencial para garantir que as pessoas possam proteger-se do VIH. No entanto, os jovens enfrentam barreiras jurídicas e políticas significativas no acesso a serviços de teste do VIH, sendo que em alguns países exige-se o consentimento parental ou de um tutor. Abordar estes desafios e promover a conversa sobre o VIH e as questões de saúde nas famílias e comunidades é fundamental.
Reginalda Elias, de 16 anos, frequenta um grupo em Ondjiva, na província de Cunene.
“Já fiz um teste do VIH com a Ativista. No princípio estava com medo, mas ela começou a falar comigo para ver se eu estava bem. Agora, posso falar com a minha família. Antes, costumavam dizer-me: ‘estas conversas são para pessoas mais velhas. Não podes estar aqui a falar’. Agora começam a habituar-se e já falam comigo.”
Os adolescentes são frequentemente apanhados nas lacunas dos serviços do VIH e têm menos probabilidades do que os adultos de serem submetidos ao teste para deteção do vírus. É por esse motivo que as líderes dos grupos recebem formação sobre mobilização social e VIH e as reuniões são divulgadas através de redes de escolas e de igrejas. As Ativistas formadas também promovem as reuniões nos seus próprios bairros e mercados a fim de alcançar raparigas adolescentes que não frequentam a escola.
Sete em cada dez mulheres jovens na África Subsariana não possuem um conhecimento aprofundado sobre o VIH, e o medo e a discriminação continuam a alimentar mitos e equívocos. No entanto, as organizações lideradas pela comunidade estão bem posicionadas para romper estas barreiras, já que evocam confiança e tratam os seus similares com respeito e dignidade.
“As minhas amigas costumavam vir ter comigo e dizer-me ‘eles vão transmitir-te SIDA’ e eu respondia ‘não digam disparates’ e explicava-lhes o que estava a aprender. Agora, uma delas também está aqui no grupo”, explica Felismina, de 14 anos, no grupo Bancadas Femininas em Ondjiva.
Para aumentar a sensibilização para o VIH e as questões de saúde entre as mulheres jovens e as raparigas adolescentes em Angola, os grupos recorrem à narração de histórias, à música e à encenação para ajudar a romper as barreiras.
To date, the Bancadas Femininas have reached over 33,000 adolescent girls and young women, supported by UNDP, UNFPA, Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo Angola (ADPP) and the Global Fund to Fight AIDS, Tuberculosis and Malaria.
“I feel good to see such a powerful woman leading the group. I always say, I must do everything I can so that one day I can be like that too. Dedicate myself more. Talk to other people. I have to learn. Being an Activista is a very good thing,” said Maria da Conceição (17).
Em 2018, apenas 38% das mulheres grávidas que vivem com o VIH em Angola tiveram acesso a medicamentos antirretrovirais para prevenir a transmissão do vírus para os seus filhos. Prevenir a transmissão do VIH para a próxima geração é fundamental para acabar com a epidemia, e as redes de mulheres grávidas e mães estão a desempenhar um papel crucial na oferta de proteção social, segurança, solidariedade e apoio.
Laura Armando, de 32 anos, vive em Luanda, Angola, e descobriu recentemente que está infetada pelo VIH. “Eu não sabia nada, não compreendia nada. Disseram que eu tenho o VIH, mas o meu marido não tem. E tenho quatro filhos.”
Os filhos tiveram resultado negativo nos testes de deteção do VIH e agora Laura frequenta um grupo de apoio mútuo que ajuda mulheres grávidas a aceder ao tratamento para o VIH. “Elas mostram-me como devo tomar a minha medicação a fim de garantir que o meu bebé não seja infetado pelo VIH.”
Em parceria com o INLS (Instituto Nacional de Luta contra a SIDA em Angola), o PNUD e o Fundo Global trabalham com redes locais e grupos comunitários para conseguir alcançar mais mulheres grávidas que vivem com o VIH, com o objetivo global de garantir que todos os bebés nasçam livres do VIH. O PNUD tem trabalhado com parceiros com vista a apoiar o desenvolvimento do plano nacional para eliminar a transmissão do VIH de mãe para filho, intitulado “Nascer Livre para Brilhar”, que é liderado pela primeira-dama de Angola, Ana Dias Lourenço.
Alzira Fonseca Vieira, de 22 anos, pertence à Associação Luta pela Vida, dirigida a mulheres que vivem com o VIH.
“Apercebi-me de que a família não é só sangue, podemos tornar outras mulheres parte da nossa família e elas passam a ser nossas parentes. Não sabia que havia reuniões de mulheres que vivem com o VIH de forma positiva. Olho para elas e digo: ‘uau’! Há uma médica no nosso grupo. Quando olhei para ela, achei que era muito jovem. Ela disse que vive com o vírus há 20 anos. Por isso, posso lá chegar. Deu-me força.”
O apoio prestado pelo PNUD, o Fundo Global e os parceiros, incluindo a Obra da Divina Providência, a Management Sciences for Health (MSH) e a MWENHO visa ajudar a capacitar as mulheres e as raparigas adolescentes através de iniciativas nas suas próprias comunidades. As mulheres e as raparigas adolescentes que vivem com o VIH ou que são afetadas pelo vírus estão na linha da frente da luta para acabar com a epidemia e estão na melhor posição para prestar apoio às suas congéneres. Graças ao trabalho das organizações lideradas pela comunidade, a nível global, mais de 24,5 milhões de pessoas têm acesso ao tratamento para o VIH desde meados de 2019.
Num mundo de desigualdade, fragilidade e discriminação crescentes, as comunidades constituem parte da solução para os desafios globais. Quer se trate de alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3, que visa assegurar uma vida saudável e o bem-estar para todos, o Objetivo 5 da igualdade de género, o Objetivo 16 da paz, justiça e instituições eficazes, o Objetivo 10 da redução das desigualdades, ou muitos dos outros ODS, o papel das organizações comunitárias é mais importante do que nunca.
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